Após zerar tarifaço, Trump promete ‘grande notícia’ ao Brasil

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na quarta-feira (20), em conversa rápida com jornalistas na Casa Branca, que divulgará uma “grande notícia” nesta sexta-feira (21). A declaração foi feita durante uma aparição inesperada na sala de imprensa, por volta das 20h no horário local. Trump não detalhou o teor do anúncio e também não confirmou se ele envolverá diretamente o Brasil.

Mais cedo, o governo americano publicou uma ordem executiva assinada por Trump determinando a suspensão imediata das tarifas de 40% sobre a importação de uma série de produtos agrícolas brasileiros. A medida tem efeito retroativo ao dia 13 de novembro e inclui itens como café, carne bovina, frutas, petróleo e peças de aeronaves — alguns dos principais produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos.

Além de eliminar a sobretaxa imposta durante o início do tarifaço, o documento exige que os impostos cobrados desde a última quinta-feira (13) sejam reembolsados às empresas afetadas.

Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores afirmou ter recebido a decisão com “satisfação” e destacou que a revogação da tarifa adicional beneficia diversos tipos de carne, café e frutas como manga, coco, açaí e abacaxi. “O governo brasileiro reitera sua disposição para continuar o diálogo como meio de solucionar questões entre os dois países, em linha com a tradição de 201 anos de excelentes relações diplomáticas”, diz o Itamaraty.

O comunicado também enfatiza que a ordem americana cita a conversa telefônica entre os presidentes em outubro e menciona recomendações feitas por altos funcionários sobre os avanços nas negociações bilaterais.

A retroatividade da medida ao dia 13 de novembro coincide com a data da reunião entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ocorrida em Washington, reforçando a articulação diplomática que antecedeu o anúncio.

Agora, resta saber se a “grande notícia” prometida por Trump para sexta-feira terá novo impacto direto sobre a relação comercial Brasil–Estados Unidos.

Fonte: Bacci Noticias

Tratativa entre EUA e China aumenta receio na cadeia da soja no Brasil

Desde fevereiro deste ano, quando começou a guerra tarifária entre Estados Unidos e China, os dois países nunca estiveram tão próximos de sentar à mesa de negociações. Essa reaproximação, caso se efetive, deve criar um quadro adverso para a soja brasileira, com eventual diminuição do ritmo de exportações e também declínio dos preços do grão, que ainda está em fase inicial de plantio.

Até o momento, é bom que se diga, é a soja americana que tem perdido espaço no mercado chinês, o que tem beneficiado o grão brasileiro. Na segunda-feira (20/10), as autoridades alfandegárias da China informaram que, em setembro, o primeiro mês da safra americana, o país não comprou um só grão da oleaginosa dos EUA. Os chineses não encerravam um mês sem importar soja americana desde novembro de 2018.

A China importou 10,96 milhões de toneladas de soja do Brasil, o que representou um aumento de 30% em comparação com setembro de 2024. O volume correspondeu a 85% do total das importações chinesas de soja no mês passado.

O presidente americano Donald Trump afirmou no início de outubro que terá um encontro com o líder chinês Xi Jinping durante a Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC). Trump disse que uma das pautas do encontro será o comércio de soja.

Ainda que as tensões entre EUA e China tenham recrudescido nas últimas semanas, para Ronaldo Fernandes, analista da Royal Rural, as declarações públicas recentes indicam que os dois países trabalham para costurar um acordo comercial.

“Toda vez que as tensões aumentam, os países criam um problema para inventar uma solução. Os Estados Unidos têm interesse nas terras raras chinesas, e a China pode usar isso a seu favor, dizendo aos americanos que vai negociar uma pequena parte dessas terras. Em troca, ela pode oferecer comprar a soja dos americanos. Ela [a China] tem hoje esse poder de barganha, pois já mostrou que pode ficar sem comprar soja deles [dos EUA] por muito tempo”, diz Fernandes.

O fim da guerra comercial, prossegue o analista, poderia causar impactos negativos para a soja do Brasil. O primeiro deles seria a redução das exportações do país. De janeiro a setembro de 2025, a China respondeu por mais de 77% das exportações brasileiras de soja. O volume dos embarques cresceu 4,83% em relação ao mesmo intervalo de 2024.

Os componentes que formam o preço da soja no Brasil também sofreriam impactos de um eventual acordo comercial, avalia Fernandes. “O dólar cairia, o preço [na bolsa de] Chicago deve subir, enquanto o prêmio nos portos teria queda, com risco de ficar negativo nos vencimentos para fevereiro e março do ano que vem. Ou seja, a soja do Brasil ‘apanharia’ de todos os lados”, pontua.

Com dólar, prêmio e câmbio desfavoráveis, inevitavelmente o preço da soja no Brasil cairia em caso de acerto entre EUA e China. Segundo estimativa de Luiz Pacheco, da T&F Consultoria Agroeconômica, a saca no interior do Paraná, atualmente cotada a R$ 131, pode cair para R$ 100. O prêmio, que para outubro está 167 pontos positivos base Paranaguá (PR), sofreria uma queda de 82%, segundo projeção do analista.

“Hoje, o Brasil é o pêndulo entre China e Estados Unidos no comércio de soja. Se a produção brasileira for realmente de 176 milhões de toneladas (na safra 2025/26, como estima a Companhia Nacional de Abastecimento), a China terá cacife para permanecer sem comprar soja americana por mais um ano. Mas se houver problema climático no Brasil, o poder de negociação estará do lado americano”, afirma Pacheco.

Os analistas destacam ainda que, após o boom de importações no intervalo janeiro-setembro, a demanda pelo grão brasileiro já perdeu força entre os chineses.

“Neste mês, a China comprou só um navio de soja do Brasil para novembro. A demanda permanece fraca, apesar de os chineses precisarem importar 9 milhões de toneladas entre dezembro e janeiro. Os chineses alegaram que a nossa soja ficou cara, mas talvez isso seja um sinal de que eles estão esperando algum desfecho com os Estados Unidos”, diz Luiz Pacheco, da T&F.

Para Ronaldo Fernandes, da Royal Rural, a China usa o argumento de que a soja brasileira está cara como “desculpa” que permite ao país diversificar seus fornecedores.

“Na primeira guerra comercial entre Estados Unidos e China, o prêmio da soja no Brasil chegou a 300 pontos positivos, e hoje está abaixo de 200. Os chineses usaram isso como estratégia para recorrer às importações do Canadá e principalmente da Argentina”, afirma. No momento, diz Fernandes, a China está com bons estoques de soja, o que permite ao país ficar fora do mercado até fevereiro. “Ou, então, até sair o acordo com os Estados Unidos”, comenta o analista.

Por Paulo Santos — Campina Grande (PB) / Globo Rural

Exportações do agronegócio gaúcho somam US$ 3,1 bi no segundo trimestre de 2025

O agronegócio do Rio Grande do Sul exportou US$ 3,1 bilhões no segundo trimestre de 2025, o equivalente a 66,7% das vendas externas do Estado. Na comparação com o mesmo período de 2024, houve retração de 14,3%, mas segmentos relevantes avançaram: carnes (9,5%) e máquinas e implementos agrícolas (89,0%), enquanto o complexo soja recuou pela menor safra.

Os indicadores integram a atualização trimestral produzida pelo governo do Estado, por meio do Departamento de Economia e Estatística (DEE), vinculado à Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG).

Setores e mercados no 2º trimestre de 2025

No trimestre, o complexo soja respondeu por US$ 963,8 milhões; carnes, US$ 620,3 milhões; fumo e seus produtos, US$ 542,5 milhões; produtos florestais, US$ 279,3 milhões; e cereais, farinhas e preparações, US$ 115,6 milhões.

Entre destinos, China (23,6%), União Europeia (16,5%), Estados Unidos (7,2%), Indonésia (4,2%) e Filipinas (3,8%) concentraram 55,2% das exportações.

A China registrou a maior queda absoluta (–US$ 498,3 milhões; –40,8%), puxada sobretudo por soja em grão e, em menor medida, por recuos em carne suína, celulose e carne de frango.

Coreia do Sul (–US$ 72,9 milhões; –55,2%) e Irã (–US$ 66,8 milhões; –59,6%) caíram principalmente por menor demanda por farelo de soja do Estado.

Em sentido oposto, Indonésia e Filipinas tiveram as maiores altas absolutas: para a Indonésia, o avanço concentrou-se no farelo de soja; para as Filipinas, na carne suína.

Primeiro semestre: composição e saldos

De janeiro a junho de 2025, as exportações do agronegócio somaram US$ 6,4 bilhões (68,4% da pauta estadual), enquanto as exportações totais do RS cresceram 2,3%.

A redução do agronegócio no semestre (–US$ 131,6 milhões; –2,0%) foi explicada por quedas no complexo soja (–US$ 427,4 milhões; –21,9%) e em produtos florestais (–US$ 104,3 milhões; –14,2%).

No complexo soja, pesaram negativamente a soja em grão (–US$ 335,2 milhões; –29,3%) e farelo (–US$ 103,2 milhões; –15,2%).

Em contrapartida, cresceram carnes (+US$ 141,5 milhões; +13,0%), fumo e seus produtos (+US$ 73,4 milhões; +6,5%) e cereais, farinhas e preparações (+US$ 63,7 milhões; +9,4%), com destaques para carnes suína e bovina, fumo não manufaturado e milho.

Os principais destinos no semestre foram China (21,6%), União Europeia (13,2%), Estados Unidos (6,7%), Vietnã (5,7%), Indonésia (4,6%) e Arábia Saudita (3,1%), que juntos responderam por 55,0% do total.

Estados Unidos: alta nas vendas e cenário tarifário

No primeiro semestre, as vendas do agronegócio gaúcho aos Estados Unidos somaram US$ 426,6 milhões (+8,8% ante 2024), o maior valor nominal da série para o período, equivalendo a 6,7% do total exportado pelo estado do setor.

Os principais grupos foram produtos florestais, fumo e seus produtos, carnes, couros e peleteria, máquinas e implementos agrícolas e gorduras/óleos de origem animal.

Entre abril e agosto de 2025, os EUA implementaram uma tarifa global mínima de 10% e uma sobretaxa adicional de 40% para o Brasil. Ou seja, uma alíquota efetiva de 50% quando não há exceção.

Celulose

De 379 itens em exceção, 26 são do agronegócio. A celulose é o único conjunto de produtos do agronegócio gaúcho totalmente isento da sobretaxa — todos os itens dessa categoria estão livres da sobretaxa. Além disso, trata-se de um segmento relevante na pauta exportadora do estado.

Desta forma, 100% da celulose enviada aos EUA está isenta, montante que representa 13,3% da celulose exportada pelo RS e cerca de 1% do valor total exportado pelo agronegócio para todos os destinos.

Assim, pode-se afirmar que cerca de 1% do valor exportado pelo agronegócio gaúcho não foi afetado pela sobretaxa, enquanto aproximadamente 5,7% estão sujeitos ao adicional de 40% estabelecido em agosto.

Sobretaxas

Sob outra perspectiva, em torno de 85,5% do total destinado aos Estados Unidos está submetido à incidência dessa sobretaxa.

Entre os itens não isentos, destacam-se fumo não manufaturado (US$ 118,3 milhões), madeiras e manufaturas (US$ 63,5 milhões), carne bovina (US$ 51,7 milhões), couros e peles (US$ 17,1 milhões) e sebo bovino (US$ 16,5 milhões) — juntos, 4,2% do total exportado pelo agronegócio gaúcho e 62,6% do enviado aos EUA no primeiro semestre de 2025.

O avanço no semestre para os EUA foi praticamente explicado pela carne bovina (+US$ 33,1 milhões), além de altas em madeiras/manufaturas (+US$ 8,9 milhões), outros produtos de origem animal (+US$ 5,4 milhões) e demais gorduras/óleos de origem animal (+US$ 3,48 milhões).

Emprego formal: melhora na dinâmica trimestral

O segundo trimestre de 2025 registrou 58.285 admissões e 65.193 desligamentos, um quadro melhor que o do ano passado — afetado pelas enchentes de maio — embora ainda com saldo negativo trimestral sazonal (–6.908).

O “antes da porteira” foi o único segmento com saldo positivo no 2º tri (+1.439), puxado por fabricação de tratores, máquinas e equipamentos agropecuários (+1.130) e fabricação de adubos e fertilizantes (+323).

No semestre, saldo positivo em postos de trabalho no campo

No semestre, o saldo foi positivo: 158.334 admissões e 135.963 desligamentos resultaram em 22.371 novos postos (29,3% de todas as vagas formais criadas no RS).

Ao fim de junho, o agronegócio reunia 404.944 vínculos formais ativos.

Entre os setores com maior criação de empregos no semestre, destacaram-se a fabricação de produtos do fumo (+10.298 postos), abate e fabricação de produtos de carne (+4.109), fabricação de tratores/máquinas/equipamentos agropecuários (+2.972) e produção de lavouras permanentes (+2.123).

Texto: Marcelo Bergter, Ascom/SPGG
Edição: Anderson Machado/Secom

Agronegócio ganha novas ferramentas para renegociar dívidas

A Medida Provisória (MP) nº 1.314/2025 representa um marco significativo para o agronegócio brasileiro, ao estabelecer novas diretrizes para a liquidação e amortização de operações de crédito rural. Publicada recentemente, esta MP visa oferecer um fôlego financeiro a produtores rurais e cooperativas agropecuárias, especialmente aqueles afetados por eventos adversos.

Vamos detalhar os pontos-chave desta importante medida:

1. Recursos Subsidiados via BNDES

Um dos pilares da MP é a disponibilização de até R$ 12 bilhões em recursos, que serão operados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Essa linha de crédito contará com taxas de juros subsidiadas, tornando-a mais acessível ao produtor.

  • Quem pode ser beneficiado? Produtores rurais que comprovem perdas em duas ou mais safras, ocorridas entre 01 de julho de 2020 e 30 de junho de 2025, em decorrência de eventos climáticos adversos (como secas, enchentes, geadas, etc.).

  • Quais operações são abrangidas? Estão incluídas operações de custeio e investimento, mesmo aquelas que já foram objeto de renegociação, além das Cédulas de Produto Rural (CPRs). É fundamental que as operações tenham sido contratadas até 30 de junho de 2024.

  • Regulamentação: As condições detalhadas, como prazos e encargos financeiros, serão estabelecidas em breve pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que irá normatizar a aplicação desses recursos.

2. Linhas de Crédito com Recursos Livres

A MP 1.314/2025 também autoriza as instituições financeiras a contratarem novas operações de crédito rural com seus recursos livres (ou seja, com taxas de mercado, não subsidiadas) para a liquidação ou amortização de dívidas já existentes.

  • Público-alvo: Produtores rurais que consigam comprovar alteração em sua capacidade de pagamento, causada por prejuízos acumulados de safras anteriores devido a eventos adversos.

  • Operações Incluídas: Abrange operações de custeio e investimento (ainda que renegociadas) e Cédulas de Produto Rural (CPRs), com regras específicas que também serão objeto de regulamentação do CMN.

3. Distinção e Atenção Redobrada

Artigo escrito por Fábio Lamonica Pereira, advogado em Direito Bancário e do Agronegócio.

É fundamental compreender que, embora a MP traga novas oportunidades de financiamento para o agro e renegociação de dívidas, ela não anula ou substitui o direito já previsto em lei e no Manual de Crédito Rural (MCR). Este amparo legal permite o alongamento de débitos nas mesmas condições contratuais originais, quando há comprovação de eventos adversos que impactaram a produção.

Alerta: A contratação de operações resultantes desta Medida Provisória, sobretudo aquelas ofertadas com recursos livres das instituições financeiras, exige cautela e análise aprofundada. É essencial que o produtor rural e a cooperativa avaliem criteriosamente as condições para assegurar que a adesão ao programa seja, de fato, benéfica e contribua para a saúde financeira e a continuidade da atividade agropecuária.

A MP 1.314/2025 é um instrumento valioso, mas sua aplicação exige conhecimento técnico e estratégico para maximizar os benefícios ao produtor.

Fonte: Artigo escrito por Fábio Lamonica Pereira, advogado em Direito Bancário e do Agronegócio.
Preço da soja cai no Brasil após Conab elevar estimativa para safra

O preço da soja caiu no Brasil nesta quinta-feira (14/8). A baixa vem após a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) elevar sua estimativa para a safra brasileira de grãos 2024/25. A companhia calcula a colheita da oleaginosa no número recorde de 169,7 milhões de toneladas, 14,8% a mais que na temporada anterior.

Das 34 praças monitoradas pela consultoria AgRural, 25 tiveram viram o preço do grão desvalorizar, e as demais permaneceram com os valores estáveis. Entre os destaques, as praças de Luís Eduardo Magalhães (R$ 126,50), Balsas (R$ 125,50) e Paranaguá (R$ 141) tiveram baixa em 2%.

Após duas altas consecutivas na bolsa de Chicago, a soja também teve baixa no mercado internacional. Os futuros com vencimento em setembro tiveram queda de 1,61% nesta quinta-feira, cotados a US$ 10,0750 o bushel.

Levantamento da AgRural aponta saca de soja em demais regiões a R$ 126 em Rio Verde (GO); R$ 129 no Triângulo Mineiro e R$ 124 em Dourados (MS). Nos portos, a soja é cotada a R$ 141 em Santos (SP) e R$ 138,50 em Rio Grande (RS).

Fonte: Globo Rural – Sob orientação de Marcelo Beledeli

Cadeia pecuária pode perder US$ 1,3 bi em vendas aos EUA com tarifaço

O Brasil pode perder US$ 1,3 bilhão em exportações de carne bovina e outros produtos da cadeia pecuária apenas no segundo semestre de 2025 caso a sobretaxa de 50% dos Estados Unidos seja confirmada a partir de agosto, estima a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo). Ao longo de 2026 e dos anos seguintes, as perdas podem ser de, ao menos, US$ 3 bilhões anualmente.

As projeções têm como base o desempenho das exportações de carnes e subprodutos bovinos do Brasil aos EUA no primeiro semestre, que somaram US$ 1,287 bilhão. Nos cálculos da entidade, a taxação anunciada por Donald Trump pode gerar saltos de 111% a 384% no valor dos impostos pagos por tonelada desses itens, o que inviabilizaria as vendas aos americanos e resultaria em prejuízo à balança comercial brasileira.

Os cálculos da Abrafrigo consideram embarques de cortes de carne bovina desossados congelados (149,4 mil toneladas e US$ 737,8 milhões), sebo bovino (230,2 mil toneladas US$ 248,7 milhões), preparações alimentícias e corned beef ou carne enlatada (23,4 mil toneladas US$ 239,1 milhões), carnes bovinas desossadas frescas ou refrigeradas (7 mil toneladas e US$ 53 milhões), carnes bovinas salgadas, secas ou defumadas (1,2 mil toneladas e US$ 7,7 milhões), tripas e rabos. A receita total foi quase o dobro da obtida no mesmo período de 2024 e o volume embarcado cresceu 85,4%.

A avaliação de Paulo Mustefaga, presidente da Abrafrigo, é que a taxação americana afetará essa cesta de produtos, e não só a carne bovina em si. Há uma preocupação especial com o sebo bovino, cujos embarques para os EUA representam quase 100% do mercado atual.

Para calcular o impacto total, a entidade considerou o preço médio de exportações desses itens, volumes e receitas obtidos nos últimos seis meses, e simulou a aplicação das tarifas de 50% no restante de 2025 e nos anos seguintes.

No caso das carnes desossadas, frescas, refrigeradas ou congeladas, a Abrafrigo relatou que o Brasil participa de uma cota de 65,8 mil toneladas distribuídas entre vários países. Só no primeiro semestre de 2025, no entanto, os frigoríficos brasileiros enviaram volume equivalente a 2,5 vezes o total da cota, com quase 150 mil toneladas, o que mostra que a maior parte paga tarifa extra-cota. No caso da carne em conserva e do sebo não há cota tarifária.

A carne desossada congelada exportada aos EUA paga atualmente uma tarifa extra-cota de US$ 1,78 mil por tonelada, o que representa 36% dos preços médios FOB. Com a tarifa adicional de 50%, o montante passaria para US$ 3,75 mil de imposto de importação por tonelada, alta de 111%. A tarifa final seria equivalente a 76% do preço da carga, o que inviabilizaria o comércio.

No caso do sebo bovino fundido, a tarifa passaria de US$ 151 por tonelada para US$ 583, alta de 286%. O valor representaria 54% dos preços médios. Em relação às preparações alimentícias e conservas bovinas, a tarifa sairia de US$ 1 mil por tonelada para US$ 5,1 mil por tonelada, alta de 384%, equivalente a 50,4% dos preços médios.

Segundo Mustefaga, as novas tarifas, com peso ainda maior sobre os preços finais dos produtos, impedem a comercialização. Com isso, a expectativa de exportar mais US$ 1,3 bilhão nos seis meses finais de 2025 pode não se concretizar. Se o ritmo das exportações fosse mantido em 2026, a projeção do setor seria vender ao menos US$ 3 bilhões aos EUA, considerando os mesmos patamares de preços.

“Quem paga essa tarifa é o importador. Ele não consegue colocar a carne congelada brasileira com 76% do seu valor em impostos, que teriam que ser repassados aos consumidores”, disse Mustefaga. Com isso, alguns importadores americanos já pediram para os frigoríficos suspenderem a produção. Quase 60 estabelecimentos são habilitados a exportar carne bovina e derivados aos EUA hoje.

No acumulado deste ano, os EUA representam quase 15% das receitas obtidas pelo Brasil com as exportações de carnes desossadas congeladas, resfriadas ou enlatadas. Em relação ao sebo, os americanos representaram 99,6% do faturamento obtido na exportação.

“A carne industrializada e o sebo bovino são muito representativos. A carne enlatada tem poucos mercados alternativos, e os EUA são muito importantes”, disse Mustefaga. Segundo ele, o preço pago pelo produto é um diferencial. “Eles pagam mais de US$ 10 mil por tonelada, cerca de 40% a mais que outros destinos”.

Na visão do dirigente, a inviabilização das vendas aos EUA pode afetar outros mercados onde os americanos têm influência, como o México e o Canadá. “Os prejuízos podem ser ainda maiores”, disse. Ele participou da reunião com o governo e demais cadeias exportadoras na terça-feira. E disse que confia na capacidade do vice-presidente, Geraldo Alckmin, de liderar o processo e conseguir reverter a tarifa.

Fonte: Por Rafael Walendorff — Brasília / Globo Rural

Juros do Plano Safra devem subir até 2,5 pontos percentuais, dizem fontes

Após mais uma rodada de discussões técnicas e da primeira reunião para decisão política com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nessa quinta-feira (26/6), a equipe do governo que atua na formulação do Plano Safra definiu que haverá alta de juros em praticamente todas as linhas de crédito rural para pequenos, médios e grandes produtores na temporada 2025/26. A elevação será entre 1,5 ponto percentual e 2,5 pontos percentuais, afirmaram duas fontes que participam da construção dos programas de financiamentos agrícolas.

Apesar de apostas do mercado financeiro em alta mais contida, o Pronamp, destinado aos médios produtores, deve ter alta quase generalizada de 2 pontos percentuais, o que fará a modalidade romper a casa dos dois dígitos nos juros e chegar a 10% ao ano. Algumas finalidades específicas devem ter taxas um pouco menores, afirmou um interlocutor do governo.

No caso do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), as linhas vão aumentar no máximo 2 pontos percentuais, disse uma das fontes. Com isso, algumas taxas que hoje são de 4% e 6% passarão para o intervalo de 6% a 8%.

Até essa quinta-feira, a informação era de que o Ministério do Desenvolvimento Agrário havia conseguido preservar as taxas de juros das linhas de crédito consideradas prioritárias e especiais, como aquelas destinadas à produção de alimentos da cesta básica, que permanecerá em 3% ao ano, mesmo com a Selic, que baseia o custo de captação dos recursos pelos bancos para empréstimos, a 15%.

A linha para agroecologia também deve ficar em 2%, em sinal de valorização da pauta ambiental e sustentável em ano de COP30 no Brasil. A Pasta ainda tenta evitar alta nos juros do programa Mais Alimentos, de 2,5% ao ano, destinado à compra de máquinas de pequeno porte adaptadas à realidade das propriedades da agricultura familiar. O financiamento de jovens, mulheres, bioeconomia, povos e comunidades tradicionais e assentados da reforma agrária também continuará incentivado.

Grandes produtores deverão ter taxas de 13,5% para custeio e comercialização, apesar de não haver muita disponibilidade de recursos novos para serem emprestados a esse público a juros controlados. Diante do aperto orçamentário, há pressão para elevar ainda mais essa alíquota, informaram duas fontes, mas o Ministério da Agricultura ainda tenta que o teto seja mantido nesse patamar. Uma reunião nesta sexta-feira (27/6) vai definir os números.

“A alta dos juros precisa ser mais próxima de 2 pontos percentuais senão a conta para um Plano Safra maior ou em linha não fecha”, disse outra fonte.

Ao Valor, o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, disse que o desafio é fazer o Plano caber no orçamento reservado para a equalização de juros. “A questão da taxa de juros está definida, vai ter aumento. Temos, agora, que compatibilizar esse incremento de taxas com os volumes equalizáveis”.

O aumento das taxas aos médios e grandes produtores vai permitir ao governo preservar as alíquotas menores para a produção de alimentos da cesta básica via Pronaf. A medida foi considerada um sucesso pelo presidente Lula, já que a divulgação do IPCA de ontem mostrou o primeiro recuo nos preços dos itens de alimentação e bebidas em nove meses.

O ajuste nas taxas também vai garantir que haja orçamento necessário para bancar a equalização dos juros entre julho e dezembro. A verba reservada é de cerca de R$ 1,3 bilhão, segundo fonte da equipe econômica. Com a previsão de manutenção da Selic em 15%, como apontou a ata do Comitê de Política Monetária (Copom), a indicação é que não haverá sobressaltos no período.

Restam, no entanto, duas dúvidas sobre orçamento. A primeira, e mais urgente, é se a derrubada do reajuste do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) vai demandar algum bloqueio adicional de verbas e se isso atingiria o recurso do Plano Safra. Se isso for necessário, o governo teria que apertar ainda mais o cinto e elevar mais as taxas de médios e grandes produtores.

A outra dúvida é sobre o custo orçamentário total do Plano Safra ao longo dos anos. Especialistas indicam que, por mais que o governo aumente os juros, o gasto com equalização ainda será maior que os R$ 16,3 bilhões da temporada 2024/25. “O custo vai ser maior. A Taxa Média da Selic (TMS) é mais alta”, indicou uma fonte.

Em maio, durante audiência pública no Senado Federal, o subsecretário de Política Agrícola e Negócios Agroambientais, Gilson Bittencourt, já alertava para a necessidade de alinhamento entre Executivo e Congresso Nacional para garantir expansão da verba para equalização dos juros no orçamento de 2026.

Por Rafael Walendorff — Brasília

Um ano após enchente, produtora de arroz do RS colhe bem, mas preço desanima

No ano passado, Ester Vargas, produtora de arroz em Mostardas (RS), viveu o desespero de perder toda sua produção com as enchentes que atingiram o Estado. Neste ano, seu desespero tem outro nome: os preços baixos do grão não bancam o custo de produção.

“Em 2024, nossa fazenda foi a única da região atingida pela enchente porque fica na beira da lagoa. Agora, colhemos uma safra muito boa, mas o preço da saca a R$ 75 força a gente a repensar a lavoura”, diz Ester, cuja família é tradicional no cultivo de arroz, mas cria também ovelhas, gado de corte e cavalos crioulos na Granja Roça Velha, de 970 hectares.

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a colheita desta safra deve chegar a 12,1 milhões de toneladas, um volume 14,8% maior do que o do ciclo anterior, mas o custo de produção subiu e o preço da saca caiu quase 40% em 12 meses.

Ester Vargas, de Mostardas (RS), é uma das produtoras que têm o único selo de Denominação de Origem (DO) concedido para o arroz — Foto: Eliane Silva/Globo Rural

Ester plantou neste ano 150 quadras de arroz, o equivalente a 261 hectares, e diz que nem vendendo toda a produção de 31 mil sacos de 50 kg conseguirá pagar as contas.

A família Vargas integra a Associação dos Produtores de Arroz do Litoral Norte Gaúcho (Aproarroz). Ela é uma das produtoras que têm o único selo de Denominação de Origem (DO) concedido para o arroz pelo Instituto Nacional da Propriedade Privada (Inpi).

Desde 2010, produtores de 12 municípios do litoral gaúcho, numa faixa de 250 km cercada pela Lagoa dos Patos e pelo mar, comercializam o grão certificado e rastreado por meio da Cooperativa Arrozeira Palmares.

Mesmo com o selo da DO, que garante a qualidade e maior percentual de grãos inteiros do arroz produzido na região, o preço de comercialização é o mesmo do arroz sem certificação, diferentemente da maioria dos produtos com indicação de procedência. Uma estimativa do Sebrae aponta que os produtos com origem certificada como o queijo da Canastra ou o café da Mantiqueira alcançam até 300% de valorização no mercado.

Amostras do arroz de Palmares foram apresentadas em evento em Gramado (RS) — Foto: Divulgação

Durante o Connection Terroirs do Brasil, evento realizado em Gramado de 28 a 31 de maio com o setor das IGs (produtos com Indicações Geográficas), Ester e outros integrantes da DO distribuíram no estande da Alameda dos Terroirs, na Rua Coberta, informações e amostras do arroz de Palmares, que também foi usado em pratos especiais na Arena Gastronômica.

*A jornalista viajou a convite do Connection Terroirs do Brasil

Fonte : Por Eliane Silva — Gramado (RS)

Cooperativas do RS irão investir R$ 1,25 bilhão em usina de biodiesel

Com um investimento de R$ 1,25 bilhão, será construída no município de Cruz Alta (RS) uma usina de biodiesel de soja. O investimento foi confirmado à Globo Rural pelo secretário de Desenvolvimento Econômico, Ambiental, Empreendedorismo e Inovação de Cruz Alta, Rogério Coradini Oliveira, e o lançamento oficial da usina será nesta quarta-feira (28/5).

A nova indústria, chamada de Soli3, é um empreendimento realizado em parceria pelas cooperativas gaúchas Cotrijal, de Não-Me-Toque; Cotrisal, de Sarandi; e Cotripal, de Panambi. Uma área de aproximadamente 140 hectares, entre Cruz Alta e a comunidade de Benjamin Nott, foi adquirida pelas cooperativas, e a previsão é de que as obras de terraplanagem tenham início no segundo semestre.

Segundo o secretário, a usina deve entrar em operação entre o fim de 2027 e o início de 2028, com estimativa de beneficiamento de 1 milhão de toneladas de soja por ano. “É um volume três vezes superior à produção de soja do nosso município, o que deve envolver a cadeia produtiva de soja de toda a região”, completa. A estimativa de faturamento, segundo o secretário, é de R$ 2,2 bilhões.

Oliveira destaca as vantagens que o município oferece e que foram fundamentais para a conquista do investimento: “somos uma cidade ‘geocêntrica’ regional, com um dos mais importantes entroncamentos rodoferroviários do Estado. Assim, contamos com diferenciais para a logística, como ligação direta com o Porto de Rio Grande, via linha férrea, e um aeroporto com pista de 1.200 metros de extensão, com estrutura para uso noturno”.

Ele também observa que, atualmente, passam pelo município em torno de 70% dos grãos, escoados via linha férrea, com destino ao Porto de Rio Grande.

Impactos econômicos

Para o secretário, o empreendimento deve gerar um impacto econômico no município de aproximadamente 60 mil habitantes, bem como na região e no Estado. Ele ressalta a movimentação do setor de prestadores de serviços e acrescenta que os resíduos de soja esmagada na usina poderão ser aproveitados em outras áreas e estimular a abertura de novos negócios.

“Temos perspectivas de que podem ser gerados outros investimentos nas imediações, inclusive de pequenas e médias indústrias. No processo de produção, são gerados o farelo de soja, que é utilizado na produção de ração animal, e a glicerina, usada pelas indústrias de cosméticos e farmacêutica”, exemplifica.

A usina de biodiesel deve gerar aproximadamente 650 empregos diretos e indiretos, além de abrir em torno de mil vagas de emprego durante a etapa de construção. De acordo com o secretário, a estimativa do projeto é de geração de cerca de R$ 210 milhões por ano de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

A Globo Rural entrou em contato com a Cotrisal e a Cotrijal, mas ambas preferiram não dar entrevistas sobre o empreendimento antes do lançamento oficial. A reportagem não conseguiu contato com a Cotripal.

Fonte: Globo Rural

NO TOPO DA LISTA: Rondônia e Mato Grosso lideram o uso de agrotóxico com 37% do consumo

O Brasil continua no topo dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo, e os estados de Rondônia e Mato Grosso seguem liderando com 37%, com o maior consumo regional. A média anual é maior que 700 mil toneladas de produtos comercializados em todo o país. Visto como vilão da saúde, os agrotóxicos (defensivos agrícolas) são utilizados na produção agrícola.

Entre janeiro e março de 2025, a área tratada com defensivos agrícolas no Brasil cresceu 1,8% em relação ao mesmo período de 2024, totalizando mais de 831 milhões de hectares. Os dados são do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Vegetal (Sindiveg), com levantamento realizado pela Kynetec Brasil. A métrica utilizada foi o PAT (Potencial de Área Tratada), que considera tanto o número de aplicações quanto os produtos utilizados simultaneamente no manejo.

O volume de defensivos aplicados avançou 3,4% no trimestre, com os herbicidas representando 42% do total, seguidos por inseticidas (28%), fungicidas (22%), tratamento de sementes (1%) e outras categorias (7%), como adjuvantes, reguladores de crescimento e inoculantes. As culturas mais tratadas foram milho (36%), soja (35%) e algodão (13%), cana-de-açúcar representou apenas 3%.

Apesar da expansão em área e volume, o faturamento do setor caiu 11,1%, somando US\$ 6,6 bilhões frente aos US\$ 7,4 bilhões do mesmo período em 2024. A retração é atribuída à queda dos preços e à desvalorização do real. As regiões com maior participação no mercado foram Mato Grosso e Rondônia (37%), seguidas por BAMATOPIPA (16%), São Paulo e Minas Gerais (14%), Paraná (10%), Mato Grosso do Sul (8%), Goiás e Distrito Federal (8%) e Sul do país (5%).

Em 2024, o Brasil registrou crescimento anual de 12,2% na área tratada com defensivos, superando 2,5 bilhões de hectares. O volume aplicado subiu 13,6%, com destaque para herbicidas (45%). Mesmo assim, o faturamento do ano foi de US\$ 19,9 bilhões, queda de 6,6% em relação a 2023.

Impacto na saúde

Estudos científicos no mundo todo têm evidenciado a relação entre o uso de agrotóxicos e diversas doenças, como: leucemias e outros cânceres; alterações neurológicas (como o Mal de Parkinson); lesões no fígado, pele e pulmão; alergias, alterações hormonais, problemas comportamentais e de saúde mental. A aplicação requer cumprimento de normas técnicas e o consumo de alimentos precisa de profunda higienização.

Fonte: rondoniaovivo